Carlos Pimenta analisa o nuclear
19-05-2011
Texto e foto: José Alex Gandun
«O caso de Chernobyl não serviu de exemplo. Pelo que vimos agora em Fukushima - e o que temos visto em muitas outras centrais nucleares com acidentes sucessivos - só prova que a lição não foi bem estudada e há que pensar em primeiro lugar nas vítimas que estes acidentes têm causado».
É assim que Carlos Pimenta, ambientalista, antigo Secretário de Estado do Ambiente e actual Director do Centro de Estudos em Economia da Energia dos Transportes, define a situação actual da Energia Nuclear.
Recorde-se que no acidente com a Central de Chernobyl houve 127 000 vítimas identificadas e 985 000 pessoas que morreram na altura do acidente e nos anos subsequentes com cancros de vários tipos de doenças devidas à radioactividade recebida.
«O meu pensamento vai para estas pessoas que em poucas horas tiveram que abandonar tudo o que era seu, tal como aconteceu agora em Fukushima, onde 200 000 pessoas receberam uma ordem: saiam... para nunca mais voltarem! Acabaram-se as memórias dos seus trabalhos, das suas casas, é difícil compreender o que é o custo humano apesar de o Japão ser um país 'preparado' para estas coisas!», comentou aquele especialista.
«E se de Chernobyl se dizia que fazia parte do regime soviético, que dizer de Fukushima, onde se descobriu que haviam relatórios falsificados há mais de 30 anos, acidentes não reportados, pessoas irradiadas não referenciadas? Quando se dá o acidente deixou de ser possível esconder tudo isso, viu-se que foram anos de mentira, anos em que a saúde humana e o bem-estar das pessoas estiveram em perigo, pois o nuclear só sobrevive na mentira», continuou.
A Central espanhola de Almaraz, que fica a 100 km da fronteira portuguesa, também mereceu reparos por parte do antigo impulsionador das associações ambientalistas em Portugal: «a Central de Almaraz é uma central que desde há 30 anos tem fugas radioactivas, teve um responsável pela segurança que foi demitido porque disse que a central não funcionava com normas de segurança mínimas. Tivemos radioactividade no rio Tejo há 25 anos devidos a fugas em Almaraz não notificadas a Portugal. Neste momento penso que isto já não estará a acontecer porque as autoridades portuguesas, por via da União Europeia, têm uma capacidade de monitorar, de verificar o que se passa na atmosfera e na água do Tejo que não havia há 25 anos».
Sobre se esta Central constitui agora perigo para Portugal, Carlos Pimenta remata dizendo que «preferia que não houvesse Central de Almaraz» pois «é uma Central que é sempre uma bomba-relógio a 100 km da nossa fronteira».
E sublinhando que com isto não está a fazer alarmismo, aquele ambientalista reafirma «que aquela Central tem uma história real vivida de milhares de problemas, uns pequenos outros grandes. Tem uma história vivida de fugas radioactivas para a água e para a atmosfera, tem uma história vivida de multas passadas pela autoridade para a segurança nuclear por não respeito das normas de funcionamento e de segurança».
E há ainda outro problema: «quando a Central acabar de vez - e já devia ter acabado - o que vai acontecer ao que lá fica? O que acontece aos resíduos radioactivos que estão lá dentro? O que acontece às toneladas de material radioactivo que estão à beira-Tejo? Nunca ninguém no mundo foi capaz de desmontar uma Central porque o custo e o tempo que leva a desmontá-la é mais caro que construí-la, e isto é um legado para a geração seguinte», vincou Carlos Pimenta, concluindo que «a geração actual ainda usou electricidade produzida pela central nuclear, enquanto a geração seguinte só tem a conta e é por isso que as empresas detentoras de centrais nucleares - como a de Fukushima - querem adiar permanentemente o fim das centrais porque deixavam de ganhar dinheiro a vender electricidade e tinham que começar a pagar para desmontar. E não há reservas suficientes em termos de fundos em lado nenhum do mundo - nem em França - para pagar o desmantelamento das centrais».
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