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Barragem de Picote é património classificado
09-11-2011
Texto: Ana Clara
A barragem de Picote, no Douro Internacional, tornou-se na primeira no país a incluir a lista de património classificado, uma distinção que abrange também a «cidade ideal» que nasceu em torno da hidroeléctrica há quase 60 anos.
A barragem e todo o aglomerado que é hoje a aldeia de Barrocal do Douro são agora símbolo da arquitectura moderna e «Conjunto de Interesse Público», um grau imediatamente inferior ao de monumento nacional.
O processo de classificação prolongou-se durante anos e foi despachado pelo anterior secretário de Estado da Cultura, Elísio Summavielle, a 17 de Junho de 2011, quatro dias antes de o Governo socialista passar o testemunho ao executivo PSD/CDS-PP.
A portaria que concluiu o processo de classificação destaca a «vasta gama de valores patrimoniais que justificam» este reconhecimento, e considera o complexo construído no Nordeste Transmontano «uma obra de referência a todos os níveis», realçando que representou há quase 60 anos «a autonomia e plena capacidade de concretização da engenharia portuguesa em projectos hidroeléctricos com grande escala e complexidade».
O empreendimento, o primeiro a ser construído no Douro Internacional, no processo de electrificação do país, é muito mais do que a barragem, já que com ela nasceu, entre 1953 e 1958, uma «cidade ideal» num lugar inóspito do Nordeste Transmontano.
Num local onde a natureza permanecia selvagem, três jovens arquitectos recém-formados na Escola de Belas Artes do Porto, tiveram a liberdade para dar azo à criatividade e transformar um morro das escarpas do Douro Internacional num local habitável e «revolucionário», numa região isolada onde faltava praticamente tudo.
Archer de Carvalho, Nunes de Almeida e Rogério Ramos projectaram há quase sessenta anos o que os entendidos da arquitectura moderna classificam hoje como «uma cidade ideal», fundada a partir do nada com todas as infra-estruturas e serviços, inacessíveis à maioria da população daquela época.
O novo aglomerado tinha capacidade para suportar o quotidiano de cinco mil pessoas, e os habitantes desta «cidade ideal» foram dos primeiros, no Nordeste Transmontano, a ter água canalizada e tratada, casas com aquecimento central, cinema, piscina, um centro comercial, estação dos correios, escola, capela e até um posto médico com especialidades ainda hoje na lista de carências da região, nomeadamente estomatologia ou raio X.
A nova aldeia foi baptizada de Barrocal do Douro, mas a barragem ficou com o nome da localidade mais próxima, Picote, e teve os mesmos cuidados dos projectistas.
A central de produção de energia eléctrica foi construída em caverna dentro da montanha, ao lado do paredão com cem metros de altura, que esconde as entranhas da barragem e as «catedrais», como são apelidados os espaços interiores descritos por estudiosos como «arrepiantes e monumentais naves subterrâneas erguidas como verdadeiros monumentos à modernidade».
Este «moderno escondido» foi descoberto há cerca de 15 anos com a publicação de um livro, com o mesmo título, da autoria de dois arquitectos da mesma escola dos autores do projecto, Fátima Fernandes e Michele Cannata, que defendem que as barragens do Douro Internacional «são obras de arte e uma parte da história da arquitectura moderna».
Desde que foi revelado o «moderno escondido» que Picote passou a integrar o roteiro de investigadores e estudantes que, até então, procuravam no estrangeiro exemplos da arquitectura moderna.
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